quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Já que não chove, tome Carnaval!


O Carnaval está chegando, mas a farra deste ano corre o risco de virar escândalo em diversas cidades do Ceará. Uma reportagem do portal Tribuna do Ceará mostra que 176 dos 184 municípios do Estado estão em situação de emergência por causa da grave seca que castiga o semiárido nordestino desde 2012.

O governo estadual já admite que sem medidas de socorro, 10 cidades correm risco iminente de colapso no abastecimento d’água. E mesmo assim, 44 prefeituras pretendem financiar, com dinheiro público, festas de carnaval.

Não vamos ser radicais e dizer que tudo é um absurdo e todos estão errados. Com alguma condescendência, é verdade que alguns municípios realmente conseguem fazer do Carnaval uma oportunidade de incrementar sua economia. Mas é fato que não existem 44 cidades nessa condição. Não no Ceará.

A Tribuna mostrou alguns exemplos. Brejo Santo e Sobral pretendem gastar 260 mil reais cada uma, com os festejos. Santa Quitéria quer torrar 400 mil reais. O caso de Granja é emblemático. A cidade, que tem o 2º pior índice de desenvolvimento humano do Estado e que há dois anos está em situação de emergência, pretende “investir” quase 900 mil reais no Carnaval. Que festa! Teve gente ligada à prefeitura de Granja que não gostou da matéria e, indignada, justificou a disposição para a folia dizendo que ninguém tem culpa se não chove lá.

A questão, claro, não é essa. Existe, pela lógica, grande chance de haver dinheiro público desperdiçado ou desviado em eventos dessa natureza. Tanto é assim que o TCM e o Ministério Público já se anunciaram que irão fiscalizar todos os contratos. No entanto, há também o bom senso e o dever de responsabilidade que a atual situação de emergência exige dos gestores públicos. O momento é crítico, já virando desastre.

Na hora em que o governo estadual corre contra o tempo para construir adutoras emergenciais – buscando assim compensar a própria imprevidência -, é um acinte priorizar festas de carnaval que não darão retorno algum para esses municípios. E se alguns ficam constrangidos com a cobertura da imprensa, é porque, no fundo, sabem que isso é uma irresponsabilidade e um crime contra a população carente de água.

Fonte: 
por Wanderley Filho